O MITO, NUM PIQUENIQUE DE AFETOS [MORNO, TERNO E TOCANTE] - 2
(...) O palco emoldurado por uma grossa faixa luminosa de leds ajuda a fixar o retrato do cinquentenário na parede da memória. Cabelos revoltos [longos e, já de algum tempo, repicados], Roberto Carlos segura o microfone como se estivesse sem o pedestal, deitando-o com frequência. E canta para fora dele, na transversal, como nos velhos tempos. Raramente deixa o posto. Metido nos figurinos habituais [blazer e calça azuis, camisa de gola branca sobre camiseta idem, talvez para aplacar o frio], Roberto Carlos é um hábil malabarista de sutilezas. Sua performance traz a marca da escola que o fez [re]conhecido: canta em praça pública como se estivesse na televisão. Dono de gestos econômicos, sorriso largo, sobrancelhas expressivas, mantém as mãos à altura do peito [para ajudar no enquadramento das câmeras?] e se apresenta para o telão, não para a platéia. Sábio, atinge a todos. Talento inato ou reflexo direto do aprendizado nos programas “Jovem Guarda” [a partir de 1965], “Jovens Tardes de Domingo” [em fins dos anos 60] e “Roberto Carlos Especial” [dos anos 80 pra cá], que o mantiveram tão presente no imaginário coletivo? [Mesmo que nos últimos tempos cante mais em alto-mar, em cruzeiros cinco estrelas, que em terra firme...] Roberto Carlos talvez se torne um dia um dos sinônimos de emoção no dicionário. O investimento vem de longe. Vencido o ímpeto juvenil [da velocidade, dos amores fugazes e outras peraltices], Roberto embrenharia-se de vez pelo veio –tenha ele fonte religiosa ou amorosa.
Dedicaria quatro quintos de sua carreira a esta mina de ouro natural, de onde ainda extrai tudo que pode. Mas é preciso reconhecer que só faz isso porque, de fato, encarna isso. E é difícil desacreditar da sua sinceridade. Com estas tintas escreveria sua biografia, desde sempre: uma passionalidade [calculada?] traduzida em declarações de princípios e/ou casos amorosos [artifício corrente e banal como estratégia de marketing no show biz], expostos por meio das músicas [convincentes] que cada uma dessas passagens teria inspirado. “Sempre gostei de fazer músicas quando estava contente, mas nesta canção estava numa bronca daquelas”, confessaria [?!] ontem, antes de mais um de seus desabafos amorosos. Com ou sem consciência, Roberto fez do isolamento uma forma de preservar suas canções de interpretações objetivas. De tempos em tempos, desvenda passagens da vida que renovam o sentido de suas letras –como já fizera com a caetaniana “Debaixo dos Caracóis”, anos atrás. E faz isso sem pretensões aparentes, como quem se abre com o vizinho, simplesmente. Assim tem sido, até mesmo em temas imprevisíveis como o de “Caminhoneiro” –a ponto de [impelido pelo encantamento da tenra infância, inda nos idos de sua Cachoeiro de Itapemirim] afirmar no show que, não fosse a música, teria se entregado ao transporte de cargas... Roberto é um cara legal [mora?!]. Desses que inspiram confiança –a ponto de se comprar um calhambeque antes mesmo de dar a partida. Fala de seus músicos [“esses meninos (!) que tocam comigo desde o começo...”] com carinho admirável. É um sincero [e calcule-se aí o risco que corre, neste tempos...]. Destes que declaram publicamente suas paixões e reconhecem as dores de amores sem vergonha alguma. E sabe seduzir seu público –quando, por exemplo, realimenta a prática de jogar flores para a platéia, para alegria incontida das tiazinhas [e sobrinhozinhos] mais serelepes, que se engalfinham [cordialmente...] pelo regalo nas fileiras da frente. O set list desta turnê comemorativa é uma panorâmica de sua história. Que pode ter perdido o timing do calendário, mas veio em boníssima hora, numa fase sensivelmente mais tranquila, menos perturbada pelos fantasmas das superstições [que o fizeram banir determinadas palavras e cores de sua vida] ou pelo luto do amor perdido/partido. O show de ontem apontou mudanças sutis em relação ao repertório que abriu a temporada, no 19 de abril dos seus 68 anos –na cidade que o revelaria num programa radiofônico dominical, menino ainda, e onde não cantava há 14 anos. Se de um lado suprimiu referências mais diretas à cidade natal [como a declaração de amor de “Meu Pequeno Cachoeiro”, presente no show de estréia da turnê], fez emergir ainda mais os laços familiares [em “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo”, seguida de “Lady Laura”, referências diretas ao pai e à mãe], a exemplo do que vem fazendo nestes primeiros shows da nova turnê. O apoio dos dois telões laterais é vital não só na tradução das “emoções” [no semblante sapeca: os olhos fechados, sorriso maroto] para o público mais distante do palco, mas para comentar ou sublinhar determinadas passagens das letras –coisa que a iluminação, marcadamente coreografada, faz de maneira excepcional. Cada um dos 20 números musicais do repertório [RETIFICANDO: 18, se minhas anotações não deixaram nada para trás...] é acompanhado, no telão, da indicação do ano de seu lançamento. E embora haja certo equilíbrio entre as fases [com uma leve inclinação para os anos 70...], o tema predominante é [adivinhe?], claro, o amor. É notável o esforço em contemplar a maior quantidade possível de hits da carreira –o que se manifesta por meio de pout-pourris, na abertura e no meio do show, com blocos de cinco canções compactadas pelos arranjos do maestro Eduardo Lages. Como se fosse realmente possível atender a todos ao mesmo tempo... Roberto Carlos é e será sempre um ícone. E por mais que a sua exposição na mídia tenha tido papel determinante no fenômeno que contabiliza 100 milhões de discos vendidos, sua obra dá corpo a um conjunto de standards que amplia o sentido do que se possa entender como música brasileira –para além do samba, da bossa ou da capacidade de expansão e síntese de gente que redefiniu parâmetros, como Villa-Lobos, Radamés Gnatalli, Mutantes, Gil, Caetano, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, Racionais, Chico Science. Guardadas as proporções, ela traduz o sentimento de uma época [como o blues, o swing, o jazz ou as grandes orquestras], seus valores e sua ética. Uma época [de inocência?] que talvez tenha “saído de moda” e soe fora de lugar. Mas que renova seu sentido a cada nova geração que carrega em seu baú sentimental as músicas ouvidas pelos pais, dessas que se canta automaticamente, mesmo sem saber que se sabia. Estes [mal-contados] 50 anos de carreira celebram a permanência das coisas que contam. E o tempo que se conta em dias é, nelas, apenas um ponto de vista difuso de quem olha a vida pelo retrovisor. “Como 50 anos [de carreira], se eu acabei de fazer 35?!”, dizia ontem Roberto, fiel ao roteiro. “Pelo menos é assim que eu me sinto”, emendaria, matreiro. Não importa se alguém escreveu isso para ele falar. Importa, sim, que é parte do que se imagina que ele diria. Porque, na sua boca, as palavras nascem trôpegas, às vezes. Mas estarão sempre encharcadas de verdade. Porque o sentido, em Roberto, só existe se estiver a serviço do sentimento.
israel do vale
Escrito por israel do vale às 22h20
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