A TV "SELF SERVICE" E OS VILÕES DA AUDIÊNCIA (4A)

A popularização dos equipamentos de produção de vídeo e dos programas de edição online pode ser a tábua de salvação da televisão, caso ela tenha competência [um mínimo de generosidade, menos covardia] para lidar com isso.

 

Se há chance de renovar esta coisa chata [envelhecida, sem surpresa] que se vê hoje em dia no ar, o condão virá de fora das emissoras, deste sem-fim de novas fontes de conteúdo que se alastra pela sociedade –graças aos céus!

 

Só se muda uma televisão por dentro se for possível mudar a mentalidade. E, em qualquer área que seja, não se vira uma cultura de imobilismo do avesso da noite para o dia.

 

Os problemas são inúmeros. Pra começar, os profissionais que atuam na execução do grosso do que vai ao ar foram moldados por e para isso [o quadradinho, todo dia do mesmo jeito] e têm uma dificuldade imensa [e pouquíssimo interesse] em absorver idéias novas.

 

Some-se aqui a frágil capacidade operacional da maior parte das emissoras –que, por maiores que sejam, dispõem de recursos técnicos e humanos restritos para suas ambições, em quantidade e qualidade [isso sem contar a incrível tendência dos profissionais de um tipo de empresa que entrega um produto contínuo, noite e dia, quererem trabalhar apenas “em horário comercial”...]

 

Pra complicar, a arquitetura de gestão [jurídica, administrativa, financeira] das emissoras é pouco maleável [pra não dizer refratária] a qualquer ação que vá além da rotina [o que, no caso das TVs do campo público, se agrava enormemente].

 

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Escrito por israel do vale às 00h51
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A TV "SELF SERVICE" E OS VILÕES DA AUDIÊNCIA (4B)

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A mobilização de conteúdos colaborativos [feitos por coletivos de criação, redes sociais, ONGs, agentes culturais comunitários ou espontaneamente, por qualquer ser humano que disponha de um celular ou máquina fotográfica com câmera de vídeo] é ainda algo indecifrável para a engrenagem burocrática, do ponto de vista das formalizações que permitem levar algo ao ar.

 

E oferece uma nova baciada de dilemas a enfrentar até que se consiga absorver com “naturalidade” conteúdos nascidos “espontaneamente” [ou por demanda própria, por mera incontinência do “direito a ter voz”] nas redes participativas e colaborativas.

 

Pra começar, este é em geral um grupo de “não-empresas”, sem quesitos básicos de existência formal como o CNPJ [uma espécie de RG de pessoa jurídica], uma dificuldade extra para a execução de determinados repasses financeiros.

 

A questão autoral é também espinhosa. A quantidade de vídeos originários de criações coletivas se multiplica dia após dia. O que força a revisão de exigências como as que são feitas para a emissão do CPB, o certificado de produto brasileiro [espécie de certidão de nascimento, obrigatória, que a agência reguladora do audiovisual, a Ancine, requer para qualquer obra que pretenda ter exibição pública].

 

Pelos critérios em vigor, a emissão do CPB exige que seja apontado “o” autor do vídeo ou filme. Pior: a autorização demanda o pagamento de uma taxa que segue critérios de mercado –capaz de inviabilizar a exibição do que se faz “caseiramente”, sem pretensões comerciais, mas que mereceria visibilidade.

 

Curiosamente, as discussões mais maduras sobre este novo cenário se dão hoje no interior de uma das empresas mais reativas a mudanças: as Organizações Globo. Refiro-me ao Canal Futura, vinculado à Fundação Roberto Marinho.

 

O Futura é um caso de exemplaridade organizacional na televisão brasileira [talvez não só] hoje, do ponto de vista da mobilização de conteúdos em diálogo com a dinâmica desta nova ordem digital.

 

E tudo começa na lógica de gestão. De saída, o número de funcionários é contado às dezenas –e não às centenas ou milhares, como na maior parte do modelo anacrônico [e, sejamos claros: descabido] que move as emissoras.

 

A prioridade lá não é produzir, mas induzir. O avesso portanto de sua nave-mãe, reflexo desta anomalia [tipicamente brasileira e nunca enfrentada como precisa] que é a produção vertical –onde quem exibe é também quem produz.

 

O Futura vai na contramão disso. E se estrutura como catalisador e fomentador de redes externas, Brasil afora. O resultado é [gritantemente!] mais expressivo e vigoroso do que aquilo que se vê no grosso, sobretudo na TV aberta.

 

No contexto da multiplicação do número de canais da TV digital, é de se estranhar o fato de que a Globo mantenha “exilado” na TV paga [para cinco ou seis milhões de pessoas, em vez de 180 milhões] algo que, por si, seria uma enorme contrapartida social –que, diga-se, ela não dá no seu dia-a-dia no que embala em plim-plim.

 

Israel do Vale, 41, é jornalista, dublê de dejota (residente SamBaCana Groove),

curador na área de música e gerente-executivo de conteúdo da TV Brasil

publicado originalmente em 27.09.08, no caderno "magazine" do jornal "o tempo" (BH/MG)



Escrito por israel do vale às 00h50
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A TV "SELF SERVICE" E OS VILÕES DA AUDIÊNCIA (3A)

A televisão é uma farsa. Uma encenação de pretensões naturalistas sabotada diariamente pelo esforço por diminuir as margens de risco [leia-se, de erro] de uma transmissão –sobretudo, quando ao vivo. E o telejornalismo, suposto bastião da “verdade dos fatos”, é o lugar em que os artifícios são expostos da maneira mais flagrante.

 

Como conferir credibilidade a algo que, por imperativos industriais, cria uma cadeia [re]produtiva de fingimentos? Que confiança pode inspirar um apresentador que não escreveu [discutiu ou, não raro, sequer leu antes] aquilo que diz na frente das câmeras?

 

Que respeito merece o repórter que não tem [porque não quer, porque não deixam...] a mínima autonomia de pensamento e vai pra rua apenas pra recolher as peças de um quebra-cabeças que começou a ser montado sem ele junto [quase que “ficcionalmente”], num gabinete com ar condicionado, apartado do mundo?

 

O telejornalismo é algoz ou vítima deste modo de produção esquizofrênico? Por que as reportagens televisivas precisam [precisam?] ser curtas e apressadas [superficiais, levianas] como são?

 

Por que o repertório de assuntos é praticamente o mesmo de um telejornal para outro? Que critérios orientam as escolhas [dos temas, dos entrevistados] e por que a abordagem costuma ser tão redundante de uma emissora para outra?

 

Questionar a televisão e o jeito de se fazer televisão é fácil. Fazer são outros quinhentos. Nem por isso é possível ser condescendente com uma questão elementar: a televisão que é feita no Brasil é incapaz de seduzir sem apelações emotivas. Sobretudo a televisão “pra pobre” –gratuita, no sinal aberto, feita para atingir “o máximo de pessoas ao mesmo tempo”.

 

Há inúmeros fatores envolvidos na queda progressiva de audiência da televisão aberta. Boa parte deles, externos a ela: a expansão da internet no Brasil, a ampliação do número de assinantes da TV paga, as possibilidades oferecidas pelo celular como dispositivo de mídia e, vá lá, até o trânsito nas megalópoles.

 

Mas há um, especialmente, que só tem a ver com ela mesma: a formularização do jeito de se fazer televisão. Há “verdades” demais no meio televisivo. E uma resistência enorme ao desafio de se fazer algo diferente.

 

À parte todas as restrições de ordem jurídico-administrativa [que não atingem apenas o campo público de televisão, por exemplo no que diz respeito aos caquéticos acordos sindicais], a cultura do profissional médio de TV é a cultura de que o melhor é fazer como sempre se fez.

 

De onde talvez derive [lá na reta final, do que vai pro ar] a incapacidade crônica da televisão de surpreender. Ou, em miúdos: de onde talvez derive o fato de que a televisão [aberta, sobretudo] é cada dia mais [numa palavra...] chata.

 

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Escrito por israel do vale às 00h11
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A TV "SELF SERVICE" E OS VILÕES DA AUDIÊNCIA (3B)

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Manter uma TV no ar todo dia é um pequeno inferno, sim. Há variáveis demais no processo de produção de um programa ou uma “simples” reportagem, das mais complexas às mais prosaicas.

 

Do trânsito no percurso [que pode implicar em chegar após o início de uma entrevista coletiva e perder “a” frase da reportagem] à confiabilidade no equipamento [e as áreas de engenharia e operações das emissoras são verdadeiras caixas-pretas, uma forma de demarcar territórios e assegurar poder que gera distorções sérias e faz a técnica agir como se trabalhasse pra si mesma e não em favor de uma indústria chamada televisão].

 

Da imaginação [e do humor...] do cinegrafista [e dos demais técnicos, capazes de abandonar um trabalho no meio porque “deu o horário”] à capacidade de o entrevistado funcionar na frente das câmeras [onde não basta ser inteligente, é preciso parecer que se é –mas sem empáfia, com frases curtas, objetivas, espirituosas, por mais distante que isso seja da vida real...].

 

Televisão é espetáculo, sim. Um esforço permanente para encher os olhos e prender atenção. O que convencionou-se chamar da capacidade de “emocionar”. Mas seria uma estupidez achar que tudo pode ser tratado como espetáculo.

 

Esta é, também, uma “brincadeira” cara, que não se faz sem dinheiro em caixa [e agilidade nos desembolsos]. Dinheiro faz e fará, sim, muita diferença. Mas o problema da televisão no Brasil não é de recursos, e sim de mentalidade.

 

Enquanto a televisão não se libertar do rádio [um veículo ágil e vigoroso, que não consegue emprestar à TV justamente o que mais lhe faz falta] ela continuará tendendo à conversa de comadres [enfadonha, arrastada] dos programas de entrevistas e debates.


Um modelo “barato” [e preguiçoso], que pode até ter seu papel nas políticas de saúde pública [haverá sempre quem tenha insônia nesse mundo, afinal...], mas não faz da TV algo minimamente instigante, especialmente no confronto com as opções “self-service” [muito mais afeitas a surpresas] oferecidas pela internet.

 

É o que vem tentando fazer projetos como o Fiz TV, com o Fiz + Sotaques [http://sotaquesdobrasil.blogspot.com], uma tentativa de traduzir e reverberar determinados temas nas cinco regiões do país. Uma idéia que tem muito a avançar, mas já traduz certo frescor que faz [imensa!] falta à TV aberta.

 

Israel do Vale, 41, é jornalista, dublê de dejota (residente SamBaCana Groove),

curador na área de música e gerente-executivo de conteúdo da TV Brasil

publicado [parcialmente] em 20.09.08, no caderno "magazine" do jornal "o tempo" (BH/MG)



Escrito por israel do vale às 00h10
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A TV "SELF SERVICE" E OS VILÕES DA AUDIÊNCIA (2A)

Uma nova safra de estatísticas sinaliza a tendência de queda de audiência na TV comercial brasileira. O termômetro da vez estaria circulando nos corredores da Rede Globo. Veio à luz pelas mãos do jornalista Daniel Castro, colunista da Folha de S.Paulo e um dos mais inseridos e respeitados especialistas na [esquálida e, geralmente, idiota] cobertura de televisão.

 

O relatório reflete dois movimentos complementares: o acirramento da disputa entre as emissoras e a diminuição do tempo do telespectador diante da televisão.

 

Nos dois casos, quem mais perde é a Globo, líder histórica de audiência –e, em decorrência, “donatária” de um latifúndio que, em 2003 [ano dos parâmetros iniciais do estudo], atingia três quartos do território publicitário dedicado ao meio televisivo.

 

A pesquisa é restrita a São Paulo –não só o maior mercado de mídia do país, mas uma das principais áreas de cobertura da emissora [do ponto de vista do repertório temático, inclusive], junto do Rio.

 

O que permite supor que pode encobrir oscilações ainda maiores, Brasil afora –uma “zona de sombra” gigantesca que não se vê [e, portanto, tem dificuldades de se identificar] naquilo que vai ao ar.

 

Pelo levantamento, a Globo teria perdido 32 minutos diários de atenção do telespectador nos últimos cinco anos. A comparação mostra que em 2003 o paulistano dedicava 5h01 de sua vida à TV. Destas, 2h47 eram direcionadas à Globo. Este montante teria sido reduzido, em julho passado, para 2h15.

 

Não é possível, pelo conjunto das informações disponibilizadas, identificar exatamente para onde a audiência caminhou. Não deixa, contudo, de ser revelador que, na média, o telespectador de hoje passa 11 minutos a menos em frente à televisão.

 

De outro lado, a sensível ascensão da Record nos índices de audiência se reflete também no tempo médio de permanência dos seres humanos diante do aparelho de TV durante a sua programação. Há cinco anos, a Record conseguia reter a atenção do telespectador por 48 minutos; hoje, quantidade de tempo subiu nada menos que 87%, para 90 minutos.

O SBT, tradicional segundo colocado no pódio da audiência, talvez tenha “doado” parte do “telespectadorado” amealhado pela Record, visto que neste período teria perdido 14 minutos de atenção, caindo de 1h33 para 1h19 –ou seja, para terceiro no ranking do tempo médio que o paulistano dedica à televisão aberta hoje.

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Escrito por israel do vale às 11h29
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A TV "SELF SERVICE" E OS VILÕES DA AUDIÊNCIA (2B)

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No confronto, Record e Globo absorvem, respectivamente, 1h30 contra 2h15 do tempo livre das pessoas. Fruto claro do investimento em telenovelas feito pela emissora de Edir Macedo.

 

Ou melhor: em telenovelas, só, não: num “padrão global” de produção que teve como estratégia contratar [a peso de ouro] profissionais da concorrente, tanto da linha de frente como da área técnica –para o investimento também em outras áreas de forte apelo, como telejornalismo e humor.

 

Nunca é demais lembrar que a TV Record se vale de fontes de recurso, digamos, atípicas –já que sua maior financiadora é a Igreja Universal, a partir das doações de seus fiéis [um montante, por si, significativo, potencializado pelo fato de que instituições religiosas não pagam imposto neste país...]

 

O fato é que, solapado de todos os lados pela concorrência e a mudança na dinâmica da produção audiovisual [com a entrada de novos “players” no mercado de televisão, o poder crescente da internet e do celular, o fortalecimento da TV paga e da TV pública e, no julgamento do Ibope, o impacto do trânsito como devorador voraz do ócio na vida dos seres humanos nas grandes cidades], o “império global” caminha a passos largos para um terreno bastante pantanoso.

 

Um lugar em que jamais esteve e que, pelas manifestações recentes de seus executivos, terá enormes dificuldades para sair.

 

O que me lembra uma frase emblemática em momentos de impasses estruturais [como este que a convergência de mídias traz para o setor]: em tempos de crise, há os que choram e os que vendem lenços.

 

A Globo vai ter que se sacudir se quiser escolher de que lado ficar. Um bom começo pode ser a revisão das “verdades” que criou e hoje [com dinheiro na mão...] são facilmente replicáveis.

 

Ou, de outro modo: a revisão de um padrão e uma lógica que funcionam sim [para determinados objetivos], mas não são [nem de longe] a melhor ou [muito menos] a única maneira de se fazer televisão.

 

Israel do Vale, 41, é jornalista, dublê de dejota (residente SamBaCana Groove),

curador na área de música e gerente-executivo de conteúdo da TV Brasil

 

publicado [parcialmente] em 13.09.08, no caderno "magazine" do jornal "o tempo" (BH/MG) 



Escrito por israel do vale às 11h28
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A TV "SELF SERVICE" E OS VILÕES DA AUDIÊNCIA (1A)

O telespectador norte-americano já experimenta a sensação de ser o próprio diretor de programação da sua televisão. Pesquisa divulgada esta semana aponta que o gravador digital de vídeo, o DVR, tem lugar cativo num dos degraus do ranking de objetos do desejo, dentre os eletro-eletrônicos de uso doméstico.

 

A capacidade de gravar um programa de televisão enquanto se assiste a outro é um dos novos atrativos oferecidos pelos recursos de TV digital –seja no HD de determinados aparelhos de LCD ou plasma, seja no set-top-box, o conversor que permite captar o sinal digital.

 

O levantamento foi encomendado pela NDS, companhia britânica especializada em soluções para dispositivos digitais em frentes como telefonia celular e TV paga, com atuação na Europa, EUA e Ásia. Seu principal investidor é a News Corporation do magnata Rupert Murdoch, um dos maiores conglomerados de entretenimento e mídia do mundo.

 

A tecnologia NDS é usada em 13,1 milhões de aparelhos de DVR, mundo afora. [http://www.nds.com/press_releases/NDS_DVR_Survey-US_030908.html]. O que sugere que os dados devam ser vistos com cautela adicional –pelo interesse direto de quem diz.

 

As informações não deixam de ser curiosas, do ponto de vista do impacto no comportamento da família digital. Segundo a pesquisa [aplicada em 1.012 pessoas entre 18 e 70 anos dos EUA, Inglaterra, Itália e Austrália], o DVR ocupa o segundo lugar entre os aparelhos eletrônicos indispensáveis para 81% os entrevistados norte-americanos. Perde apenas para o celular, com 92%.

 

Quando o confronto se restringe aos eletrodomésticos, o gravador digital de vídeo perde 19 pontos percentuais, mas cai apenas uma posição –superado pela máquina de lavar (!), com 97%, e o microondas, com 86%. [Esses norte-americanos...].

 

A tecnologia NDS do DVR embutido no conversor permite que os assinantes de TV por satélite pausem e gravem um programa ao vivo para assistir quando quiserem –revendo o que for de interesse ou avançando os intervalos comerciais, por exemplo.

 

Poderia soar leviano chamar isso de uma revolução na queda-de-braço entre marido e mulher para decidir entre o jogo de futebol ou novela –signos de programas típicos de “macho e fêmea” no imaginário popular.

 

Pois a pesquisa dá subsídios para considerar a hipótese como real. Nos EUA, 81% dos entrevistados consideram que o DVR melhorou a convivência familiar, tornando-a “mais feliz e menos estressante”, com a intensificação dos jantares em conjunto e a diminuição das discussões sobre o que assistir.

 

Para 79% dos que têm parceiros, a relação entre marido e mulher teria melhorado [ou, visto de outro modo, para 2% dos americanos ainda não é a “televisão self service” que vai salvar o casamento...].


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Escrito por israel do vale às 23h30
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A TV "SELF SERVICE" E OS VILÕES DA AUDIÊNCIA (1B)

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O universo de entrevistados dá uma noção mais abrangente da relação do norte-americano com a televisão hoje. De acordo com a pesquisa, 57% assistem TV por pelo menos três horas diárias [incluindo aí os programas gravados]. Na média, os homens assistem 10% mais programas gravados que as mulheres. 

Dois terços dos usuários acham mais fácil operar um DVR que um videocassete e 59% consideram que passaram a assistir programas mais interessantes desde que começaram a usar este recurso. 83% acham que o aparelho torna mais fácil encontrar algo para assistir; nove entre dez seres humanos pesquisados consideram que os recursos oferecidos pelo DVR tornaram a experiência de assistir televisão mais agradável.

 

Os norte-americanos prefeririam abrir mão do telefone fixo, do rádio, do secador de cabelo e do tocador de MP3 a considerar a possibilidade de ficar sem seu gravador digital de vídeo.

 

A pesquisa também compara hábitos dos telespectadores da Inglaterra, Itália e Austrália. Indica que os britânicos assistem na média 3.7 horas diárias de televisão, contra 3.8 dos australianos, 4.1 dos italinaos e 4.7 dos norte-americanos –o que sobe para 5.4 quando o recorte é o dos quarentões para cima.

 

Estudo do Ibope sobre o cenário no Brasil divulgado mês passado insinua que a televisão aberta no país vem perdendo audiência não apenas para a internet, mas também para outras opções de circulação audiovisual. Um dos indicadores usados pelo instituto é o aumento de 37% na venda de videocassetes e aparelhos de DVD, entre 2005 e 2007. Sinal de que o DVR tem um terreno fértil para prosperar também por aqui.

 

E que, cedo ou tarde, os métodos de aferição de audiência [e os critérios de definição da programação] terão de ser refinados, migrando da mentalidade do atacadão para a do varejo, do falar para o máximo de gente ao mesmo tempo para o foco em determinados nichos –e em um por vez.

 

Em suma, vai ser difícil sustentar por muito tempo a lógica vertical [de cima pra baixo] e unidirecional [de dentro pra fora] que orientou por meio século a televisão no Brasil. A política do zapping está em vias de ser superada. A palavra de ordem da TV 2.0 é a autoprogramação.

 

Israel do Vale, 41, é jornalista, dublê de dejota (residente SamBaCana Groove),

curador na área de música e gerente-executivo de conteúdo da TV Brasil

publicado [parcialmente] em 06.09.08, no caderno "magazine" do jornal "o tempo" (BH/MG)



Escrito por israel do vale às 23h27
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LOBO-MAU X POLLYANA, NA NOVA [DES]ORDEM DIGITAL (A)

Jornais e sites especializados deram considerável destaque nos últimos dias a uma declaração de executivo da Rede Globo que lamenta a mudança de comportamento do mercado de comunicação com a disseminação da internet e da telefonia celular.

 

A afirmação foi feita durante participação na quinta edição do Fórum Internacional de TV Digital, no Rio. E diz respeito aos desafios [e ao impacto] da nova ordem digital no meio televisivo. Com direito, inclusive, a um “nós éramos felizes e não sabíamos”.

 

Não se pode dizer que a declaração seja surpreendente [ou sequer novidadeira], afinal. A TV comercial aberta sempre se esquivou da idéia de adotar a multiprogramação –a possibilidade de ampliar o número de canais [quem sabe o de vozes e interesses] à disposição do brasileiro. Foi esta a queda de braço essencial que moveu os lobbies em favor da adoção do padrão japonês no país.

 

Em nome da “qualidade” da alta definição [que, por favor, ninguém seria capaz de dizer que não interessa] restringiu-se enormemente a idéia da multiplicação de canais –e, portanto, da suposta entrada de novos agentes no mercado de televisão aberta.

 

O maior dos truques neste sentido foi manter a mesma fatia do espectro [o “tubo” por onde trafegam os sinais] nas mãos de cada concessionário –ou seja, de cada grupo empresarial que recebe do Governo Federal o direito de explorar [em tese...] por determinado período, prorrogável ou não, o serviço de TV aberta.

 

A discussão, abafada ao máximo na época, contrapunha duas idéias. Uma defendia que o “dono” da outorga poderia fazer o que quisesse [como se vê, se quisesse...] com o espaço que sobra quando o sinal analógico [que ocupa todo o espectro,] é compactado digitalmente.

 

Na contraface, o argumento [encabeçado pelos movimentos em defesa da democratização das comunicações] era de que a outorga oferecia o direito de operar UM canal [ou seja, uma programação] e não de se usar o “tubo” inteiro. Não é preciso dizer quem levou a queda de braço...

 

A justificativa do diretor de engenharia da Globo, Fernando Bittencourt, no Fórum de TV Digital, é de que a ampliação do número de canais é inviável, do ponto de vista dos negócios.

 

E ele se respalda numa lógica simples: se o bolo publicitário [ou a “pizza”, como prefere] não vai crescer, não há o que justifique criar novos canais –o que demarca com clareza o posicionamento de que um patrimônio da sociedade como é a televisão existe apenas para servir a interesses empresarias, e não aos da população.

 

Não deixa de ser curioso constatar que a fala vem de uma empresa que mantém número razoável de [bons!] canais na TV paga [com conteúdos de maior “interesse público”, na média, mas de acesso restrito]. O que permitiria supor que o investimento para a migração seria mínimo [ou não?].

 

Outro trecho emblemático da fala de Bittencourt [fundamentado em números do mercado norte-americano...] se refere ao fato de que a TV não estaria perdendo audiência para as novas vias informativas e de entretenimento, mas diluindo-a entre outros meios, sem impactar o mercado de mídia. [Pollyana talvez fosse mais incisiva neste encontro com Lobo-mau no escuro da floresta digital...]

 

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Escrito por israel do vale às 13h10
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LOBO-MAU X POLLYANA, NA NOVA [DES]ORDEM DIGITAL (B)

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Em meio a todas as pressões da convergência de mídias e de discussões regulatórias [reverberadas pelo Congresso Nacional via PL-29, o projeto de lei que redefine papéis e espaços no cenário da TV paga e muda o jogo de forças com a produção independente e as empresas de telecomunicações], supor que as coisas têm chance de seguir como são parece semear girassóis em campos de nuvens.

 

Chama atenção, também, o perfil dos profissionais destacados pelas emissoras para falar de TV digital em eventos sobre o tema. Assim como a Globo, Record e SBT foram representados na discussão por executivos de tecnologia –a Band, por seu vice-presidente.

 

Enquanto a TV digital continuar sendo tratada como mais um brinquedinho de engenheiros ou a nova lufada de impulsão das velas do mercado de eletroeletrônicos [sem encarar a fundo a inevitável reviravolta no modelo de negócios ou a nova lógica de empacotamento do conteúdo desta nova mídia –bidirecional, que faz do telespectador um ser particip/ativo], a discussão continuará fora do foco que importa, em dissonância com os interesses [e necessidades] da sociedade.

 

É hora de fazer deste traste chamado televisor um porta-vasos, se muito. Mas se a mentalidade analógica não for aposentada junto, nada mais vai florescer.

 

Israel do Vale, 41, é jornalista, dublê de dejota (residente SamBaCana Groove),

curador na área de música e gerente-executivo de conteúdo da TV Brasil

publicado originalmente em 30.08.08, no caderno "magazine" do jornal "o tempo" (BH/MG)



Escrito por israel do vale às 13h10
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VER/A/CIDADE, O FILHO DO REI E O RAP POSITIVO (A)

Jornalismo e documentário já foram tidos como molduras consistentes para o retrato da realidade. E a multiplicação das fontes de informação desta nova ordem digital faz desmoronar, dia após dia, a idéia de que algo possa realmente ser descrito numa única versão satisfatória, seja ela qual for.

 

O discurso artístico, de outro lado, não tem qualquer compromisso com os fatos. Mas às vezes é capaz de revelar mais sobre o seu tempo do que qualquer esforço de registro isento.

 

Neste contexto, o rap talvez seja uma das lupas mais importantes já usadas para enxergar a vida contemporânea, nas últimas três décadas. E se o vaticínio de Chuck D [integrante de um dos grupos seminais da história do hip hop, o norte-americano Public Enemy] serve de lastro, “a CNN da periferia”, como ele chamou, aumenta a cada dia seu raio de alcance e influência.

 

O rapper mineiro Renegado é filho destes tempos. Filho do rei, como diz, sabe com clareza que periferia é periferia em qualquer lugar. E que quem nasce para o bem, seja onde for, não perde a majestade.

 

A capacidade de transformar em orgulho o que já foi vergonha é uma das grandes virtudes do rap. Um exercício de auto-estima coletiva, que dá nome aos bois, localiza o “inimigo público” [dentro e fora das comunidades] e isola o que há de negativo do resto, demarcando o território da regra e da exceção.

 

Renegado é um cronista do seu tempo e do seu lugar. Que sabe o peso da palavra e a sua capacidade de intervir, positivamente, no sentimento de pertencimento que todo mundo busca, de um jeito ou outro.

 

Faz um rap família, digamos assim –sem qualquer sentido depreciativo, plis. Um rap positivo, respeitoso, comprometido com sua história e seus iguais, na contramão da bobajada do rap dominante no mercado norte-americano, que se divide entre os deslumbrados com carrões, correntes de ouro e o mulherio ou o elogio da bandidagem.

 

“Do Oiapoque a Nova York”, seu disco de estréia [que tem lançamento na próxima terça, em Beagá], é um espelho da atitude de ter atitude. Com versões em CD e SMD [sigla em inglês para disco semi-metálico, um primo mais modesto do CD], o disco materializa uma trajetória rigorosamente comprometida com a comunidade em que nasceu, o Alto Vera Cruz, um dos maiores aglomerados de vilas e favelas da região metropolitana da cidade.

 

O Alto Vera Cruz é, sem dúvida, um dos personagens mais marcantes do disco. Musa e mãe, a comunidade é citada diretamente em duas músicas e rasgadamente homenageada no apagar das luzes das 13 faixas.

 

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Escrito por israel do vale às 00h12
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VER/A/CIDADE, O FILHO DO REI E O RAP POSITIVO (B)

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“Do Oiapoque a Nova York” é um exercício de veracidade [vera/cidade? ver/a/cidade?] com a carga de credibilidade de quem é reflexo do que se vive ali. Um passeio sem medo pelos becos da comunidade, que remete sempre a ela e usa da vida no lugar para fazer uma leitura realista mas otimista do mundo, para além das agruras e limitações.

 

Filho de Vera [a quem homenageia lindamente no jogo de duplos sentidos da derradeira do disco, “Vera”], Renegado construiu sua reputação no [cada vez mais forte] hip hop mineiro em torno do trabalho de mobilização da comunidade feito, desde 1997, via NUC [Negros da Unidade Consciente].

 

Foi ali, no grupo de rap desdobrado em ONG, que ele fortaleceu laços como os do Manifesto Primeiro Passo, união de forças em disco com outros três projetos culturais locais.

 

Ombreado pelo músico Gil Amâncio [seu parceiro na música “Conexão Alto Vera Cruz/Havana”], Renegado cresceu e expandiu horizontes. E de dois anos para cá assumiu-se como artista solo, hoje também ao violão.

 

“Do Oiapoque a Nova York” é o passo adiante natural neste processo de amadurecimento. Um disco simples e luxuoso, bem cuidado, com a assinatura de Daniel Ganjaman, um dos produtores mais inquietos e criativos surgidos entre indies & pendentes nesta última década –seja junto do coletivo paulistano Instituto, seja em trabalhos com ícones do rap nacional como Racionais e Sabotage.

 

Curiosamente, “Mil Grau”, uma das faixas mais bacanas e dançantes, não tem a mão de Ganjaman, mas sim do baixista Felipe Fantoni, um dos mais talentosos instrumentistas desta vibrante “quarta onda” da música mineira.

 

Embalado em funk setentista, soul music, samba, dub e raggamuffin, o CD é coalhado de participações: dos rappers paulistas Funk Buia e Max B.O. aos cubanos Alayo e Cubanito; das cantoras Julia Ribas e Aline Calixto [prestes a botar o bloco na rua, num disco de estréia que promete] às Meninas de Sinhá.

 

“Do Oiapoque a Nova York” é o marco zero de uma nova fase para Renegado. Que pode ajudar a projetar o rap mineiro de uma vez por todas, merecidamente, para além.

 

Israel do Vale, 41, é jornalista, dublê de dejota (residente SamBaCana Groove),

curador na área de música e gerente-executivo de conteúdo da TV Brasil

publicado originalmente em 23.08.08, no caderno "magazine" do jornal "o tempo" (BH/MG)



Escrito por israel do vale às 00h12
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A VERBA, O VERBO E O CALEIDOSCÓPIO MUSICAL (2A)

O setor da cultura se ouriça a cada nova edição do Petrobras Cultural. E não é por menos. O processo de seleção de projetos da maior patrocinadora desta área no país mobiliza produtores e artistas de todas as regiões. E a ampulheta que marca a contagem regressiva para o próximo edital já está virada: o marco das inscrições para a edição 2008 é 15 de outubro.

 

Os motivos fundamentais do status adquirido pelo Petrobras Cultural são dois: o montante que ele faz circular [superior à verba da maior parte das secretarias de cultura do país] e o criterioso processo de seleção, alicerçado em comissões externas formadas por profissionais respeitados em cada área.

 

Nenhum modelo de julgamento de projetos é científico o suficiente para evitar subjetividades. Daí a importância na composição das comissões de seleção. Delas depende a idoneidade de qualquer concurso. E quando isso é feito por uma empresa deste porte, é a credibilidade da própria empresa que está em jogo.

 

Ninguém imagina que isso, por si, seja capaz de derrubar o valor de ações no mercado. Mas a imagem de uma empresa do porte da Petrobras se constrói [valoriza ou desvaloriza] também pelo reconhecimento na sociedade.

 

Minas Gerais têm um histórico de inquietações com a petrolífera, neste sentido. Manifestado, dentre outras rodas culturais, no Fórum Mineiro do Audiovisual do ano passado. A informação que circula é de que a imagem da empresa entre os mineiros está abaixo da média [em termos de positividade] da que ela têm país afora.

 

E isso se deveria [no julgamento suspeito de uma parcela do meio cultural, diretamente interessada no assunto] à timidez dos investimentos em cultura no estado. Causou especial desagrado [no tal contexto] o fato de que a mais recente seleção de filmes feita pela empresa não contemplou um único projeto mineiro de longa-metragem. Mas os queixumes também campeiam entre produtores de outras áreas –música inclusa, claro.

 

É evidente que não é possível para empresa alguma de caráter nacional selecionar um representante de cada estado do país para cada categoria em seus editais. E seria legítimo imaginar que isso fosse um critério de desempate em julgamentos deste tipo, mas não um filtro.

 

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Escrito por israel do vale às 22h21
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A VERBA, O VERBO E O CALEIDOSCÓPIO MUSICAL (2B)

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A Petrobras parece, contudo, saber que precisa se relacionar melhor com o mineiro. E que a área da cultura é um excelente instrumento para comunicar isso com mais rapidez. Por isso coleciona um histórico de apoios a ícones do estado como os grupos Corpo e Galpão. As comemorações belo-horizontinas dos 40 anos da empresa, realizadas na Praça da Estação, não deixam de ser um afago nesta direção também.

 

Eventos de porte, como se sabe, são momentos-chave de mobilização de audiência. O que constrói a imagem de uma empresa, no entanto, é sua capacidade de criar vínculos com o cliente. De vender conceitos, coerentemente. E de mostrar-se continuamente solidária, cúmplice e atuante no fortalecimento de ações que reforçam laços e dão sentido [melhoram, quem sabe] à sua vida.

 

Se o que corre no meio cultural serve como termômetro, a Petrobras, em Gerais, ainda não consolidou isso o suficiente. Não há, em sua ação no estado [onde mantém a refinadora Regap, em Betim], uma política específica para a área cultural. E seria ilusório [talvez incorreto] supor que a seleção pública promovida pelo Petrobras Cultural pudesse, sozinha, dar conta disso.

 

O fato é que o Petrobras Cultural faz diferença. E, aparentemente, tem contemplado [satisfatoriamente ou não...] projetos mineiros em proporção compatível com a média do, digamos, segundo escalão.

 

Os comparativos mantidos no site da empresa ilustram isso: na edição 2006/2007, 16 dos 263 projetos escolhidos são originários do estado. É pouco, sem dúvida. Mas é o mesmo número de aprovados do Rio Grande do Sul, um a mais que Pernambuco, dois a mais que o Distrito Federal e três a mais que a Bahia.

 

O primeiro escalão é dominado, claro, por RJ e SP. E por mais que a gritaria seja constante [e compreensível], é importante considerar [neste caso e em todos os outros editais culturais] que isso reflete também o volume [e, nunca é demais dizer] a qualidade [relevância, contribuição, pertinência em relação ao perfil do edital etc] dos projetos inscritos.

 

A primeira das duas fases em que se divide o próximo Petrobras Cultural [esta de outubro] prevê escoar R$ 42,31 milhões pelas veias do meio cultural.

E a última edição do edital teve 7.392 inscritos. Sinal claro de que a demanda, gigantesca, jamais será atendida numa única tacada, seja qual ela for. O que não impede, claro, que eventuais desequilíbrios sejam corrigidos.

Israel do Vale, 41, é jornalista, dublê de dejota (residente SamBaCana Groove),

curador na área de música e gerente-executivo de conteúdo da TV Brasil

publicado originalmente em 16.08.08, no caderno "magazine" do jornal "o tempo" (BH/MG)



Escrito por israel do vale às 22h20
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A VERBA, O VERBO E O CALEIDOSCÓPIO MUSICAL (1A)

O setor musical ainda é patinho feio no lago dos cisnes das políticas públicas, do ponto de vista da economia da cultura. E se ressente de um conjunto de ações consistentes à altura do status que se imagina que a música brasileira tenha, aqui e alhures.

 

Isso se deve, sobretudo, à incapacidade crônica de mobilização do meio musical para além dos interesses imediatos e pessoais. Reflexo claro da sua imaturidade política, do ponto de vista da articulação e do mau uso [ou não-uso...] dos canais de reivindicação –o que é agravado pelo horizonte estreito e nebuloso na seara da formulação e da proposição.

 

Dois novos movimentos destes dias colocam à mesa um cenário menos desalentador: um de abrangência nacional, capitaneado pela Petrobras, e outro centrado nas Minas Gerais, conduzido de forma compartilhada com músicos e produtores, integrantes de entidades representativas.

 

Se nenhum, isoladamente, é suficiente para corrigir desequilíbrios e fomentar a atividade como ela precisa, ambos ao menos aplainam o terreno em direção à nova realidade que [em nome do pai, do filho, do espírito santo e de muito trabalho...] um dia virá.

 

No âmbito do governo federal, as políticas públicas na área da música têm grande potencial de articulação –a partir da conexão entre instituições importantes que, agindo coordenadamente, poderiam ativar uma nova dinâmica neste universo.

 

Não há, no interior do Ministério da Cultura, um setor específico que formule políticas para a área –como tem, por exemplo [e apenas], o audiovisual. Na era Gilberto Gil, a interlocução foi feita por meio de sua dedicada assessora direta, Paula Porta, que encabeçou ações importantes como a Feira da Música, em Recife –e acaba de entregar o cargo, a reboque do chefe.

 

O horizonte da sucessão [que aponta para a elevação do “vice-ministro” Juca Ferreira ao posto vago] permite apostar na continuidade e pode ser um bom momento para acentuar reflexões nesta área.

 

O braço do MinC para as manifestações artísticas é a Funarte, hoje sob comando de Celso Frateschi. Por lá passam as ações de maior impacto no universo musical –a exemplo de projetos preciosos como o Pixinguinha, há três décadas ajudando a desatar um dos nós cruciais do meio, no que diz respeito à circulação de shows.

 

Uma boa hora, portanto, para prestigiar ainda mais a Funarte e colocá-la no patamar que merece e precisa –e que passa não só por recursos para reformar e reequipar seus centros culturais, mas pela construção de políticas perenes, de ação descentralizada. A